//Dia Mundial do Leite: celebrar a produção exige defender quem permanece no campo

Dia Mundial do Leite: celebrar a produção exige defender quem permanece no campo

Produtores enfrentam custos elevados, concorrência desleal e a falta de medidas concretas para proteger a cadeia leiteira nacional

No Dia Mundial do Leite, celebrado em 1º de junho, há muito a reconhecer sobre a importância de uma cadeia produtiva que abastece diariamente milhões de brasileiros, gera empregos, movimenta economias locais e sustenta milhares de famílias rurais. No entanto, a data também convida à reflexão sobre os desafios enfrentados pelos produtores de leite, que convivem com o aumento dos custos de produção, a escassez de mão de obra, as dificuldades de acesso ao crédito, os efeitos das mudanças climáticas e a volatilidade dos preços pagos pela matéria-prima. Produzir leite é uma atividade que exige dedicação permanente, investimentos contínuos e alto nível de gestão, mas que nem sempre encontra condições adequadas para garantir rentabilidade e segurança econômica ao produtor.

Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, não há muito o que comemorar. Muitos produtores estão abandonando o campo por falta de uma política mais efetiva. Vale lembrar que cerca de 98% dos municípios brasileiros tem pecuária leiteira, seja de forma comercial ou para o sustento das famílias. O país possui o segundo maior rebanho leiteiro do mundo, atrás apenas da Índia, emprega cerca de 4 milhões de pessoas em sua cadeia, mas sofre com queda de mais de 20% no preço pago por litro, enquanto os custos de produção aumentaram acima de 25%.

“Hoje não há nada a comemorar. O dia deve ser de reflexão sobre os desafios enfrentados pelos produtores diariamente e tentar achar solução para a falta de investimento no setor. O dia do leite precisa ser comemorado todos os dias, mas é vital que haja preocupação também com o produtor”, frisou o presidente da Faesp.

A situação torna-se ainda mais preocupante diante da recente decisão do governo federal de reconhecer oficialmente a existência de dumping nas exportações de leite em pó provenientes da Argentina e do Uruguai, sem, contudo, adotar medidas efetivas de defesa comercial para proteger o mercado brasileiro. O reconhecimento dessa prática demonstra que há distorções concorrenciais que afetam diretamente a competitividade da produção nacional.

“A Faesp vem alertando há mais de um ano sobre essa situação, mas nada tinha sido feito até então. Reconhecer o dumping é importante, mas é preciso tomar as medidas necessárias para que a cadeia não continue sangrando. Ao optar por não implementar mecanismos de proteção, o governo transfere para o produtor rural o peso de competir com produtos importados que chegam ao país em condições consideradas artificiais e prejudiciais ao equilíbrio do mercado”, disse Meirelles.

As consequências dessa postura podem ser profundas e duradouras. Sem rentabilidade, muitos produtores reduzem investimentos, comprometem a modernização das propriedades e, em casos mais extremos, abandonam a atividade. O enfraquecimento da produção leiteira nacional afeta não apenas quem está dentro da porteira, mas toda a cadeia econômica ligada ao leite, incluindo cooperativas, indústrias, transportadores e o comércio local dos municípios produtores. É preciso defender políticas que garantam condições justas de concorrência e valorizem quem produz. Afinal, sem produtor não há leite, e sem uma cadeia forte o país perde capacidade produtiva, empregos, renda e segurança alimentar.